Uma Mente Inquieta - Resenha crítica - Kay Redfield Jamison
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Uma Mente Inquieta - resenha crítica

Biografias & Memórias

Disponível para: Leitura online, leitura nos nossos aplicativos móveis para iPhone/Android e envio em PDF/EPUB/MOBI para o Amazon Kindle.

ISBN: 9788533605251

Editora: Martins Fontes

Resenha crítica

Imagine correr pelo estacionamento de um centro médico às duas da manhã, descalça, com o coração disparado e a certeza absoluta de que você entendeu algo que ninguém mais entendeu. Um policial se aproxima. Um colega chega e explica, quase pedindo desculpas: está tudo bem, nós dois somos professores de psiquiatria aqui.

Essa cena aconteceu com Kay Redfield Jamison em 1974, quando ela tinha 28 anos. Era professora assistente de psiquiatria na UCLA. Ensinava sobre transtornos de humor durante o dia. E, à noite, perdia completamente o contato com a realidade.

Este microbook conta a história de uma mulher que passou anos tratando pacientes enquanto escondia que era, ela própria, uma paciente. Não é um relato clínico. É o depoimento de alguém que conhece a doença maníaco-depressiva pelos dois lados: pelo microscópio e por dentro.

Você vai acompanhar como uma menina brilhante de base militar descobriu que sua mente tinha estações próprias. Como resistiu por anos a um comprimido que poderia salvá-la. Como quase morreu por causa dessa resistência. E como, no fim, construiu algo que ela chama de quebra-mar — uma estrutura interna feita de remédio, amor e teimosia.

Não espere uma história de superação limpa. Espere algo mais honesto: a história de alguém que aprendeu a viver com uma tempestade que nunca vai embora de verdade.

A menina que via o pai afundar

Kay cresceu em bases da Força Aérea americana, mudando de cidade em cidade. O pai era meteorologista e piloto, um homem de imaginação enorme, que apontava constelações e inventava histórias. A mãe era o oposto: firme, calorosa, previsível. Entre os dois, a infância dela foi segura e encantada.

Aos quinze anos, a família se mudou para a Califórnia. E foi ali que tudo começou a rachar. O pai, aquele mesmo homem expansivo, começou a afundar em depressões pesadas e explosões de raiva. O céu que ele mostrava para os filhos fechou. Kay assistiu, sem nome para aquilo, ao temperamento brilhante do pai virar doença.

Pouco depois, chegou a vez dela. Primeiro veio uma fase de energia estranha: pensamento acelerado, ideias grandiosas, noites sem sono que pareciam presente e não problema. Depois veio a queda. Uma depressão profunda, paralisante, com pensamentos de morte, aos dezesseis anos. Ela não contou a ninguém. Naquele contexto, no começo dos anos 1960, contar não era uma opção que existisse.

O primeiro encontro com a loucura alheia

Ainda adolescente, Kay foi trabalhar como voluntária no hospital psiquiátrico St. Elizabeths, em Washington. Foi ali que ela viu a doença mental sem filtro pela primeira vez — não em livro, não em aula, mas em corredores reais.

Uma paciente marcou-a para sempre. A mulher acreditava ter uma máquina de pinball dentro da cabeça. Descrevia as luzes, as bolas metálicas batendo, os pontos acumulando. Kay ficou fascinada e aterrorizada na mesma proporção. Fascinada porque a mente humana era capaz de construir aquilo. Aterrorizada porque, em algum lugar dela, algo reconheceu o terreno.

Esse é um detalhe que se repete na vida dela: a atração pela psiquiatria nunca foi só curiosidade intelectual. Era reconhecimento. Ela queria entender uma coisa que já estava acontecendo com ela. E, ao mesmo tempo, estudar aquilo funcionava como uma forma sofisticada de não olhar para si mesma. Você pode passar anos analisando um fenômeno sem nunca admitir que ele mora na sua casa.

Brilhante e paralisada ao mesmo tempo

A faculdade na UCLA foi uma montanha-russa. Havia semanas em que Kay comprava coisas que não podia pagar, começava projetos impossíveis e falava sem parar. E havia semanas em que não conseguia sair da cama nem chegar até a sala de aula.

Um professor de psicologia mudou o rumo dela sem saber. Ele aplicou o teste de Rorschach, aquele das manchas de tinta, e Kay deu respostas bizarras, associativas demais. Em vez de marcá-la como problema, ele as elogiou como criativas e ofereceu a ela uma vaga de assistente de pesquisa. Aquele trabalho ancorou a parte analítica da mente dela num momento em que o resto girava solto.

Depois veio um ano de estudos na Universidade de St. Andrews, na Escócia. Ela descreve aquele período como um verão de São Martinho na própria vida: uma trégua fora de época, luminosa, longe do caos californiano. E aqui está o mais impressionante. Kay estudava psicopatologia e psicofarmacologia na pós-graduação, lia sobre ciclos de humor todos os dias, e ainda assim não conseguia ligar aqueles gráficos à própria existência. A negação não é burrice. É uma proteção que trabalha contra você.

O voo rasante da loucura

Aos 28 anos, recém-contratada como professora assistente de psiquiatria na UCLA, Kay entrou no episódio que mudaria tudo. Começou de forma quase sedutora. Numa festa do reitor, ela era a pessoa mais fascinante do salão: rápida, engraçada, elétrica, brilhando de um jeito que os outros achavam magnético.

Duas semanas depois, o brilho virou terror. Ela passou a ter alucinações visuais — uma centrífuga de sangue girando diante dela, e a certeza de que as plantas ao redor estavam sofrendo, gritando de dor. As compras se tornaram absurdas: entre outras coisas, ela adquiriu dezenas de kits contra picada de cobra. Não havia cobra alguma. Havia uma lógica interna incontestável que ninguém mais podia acessar.

O casamento desmoronou. As dívidas se empilharam. E a psiquiatra que ensinava sobre mania não conseguia reconhecer a mania em si mesma. Foi um colega médico quem a arrastou para o consultório. O psiquiatra que a recebeu foi direto e compassivo em doses iguais: o diagnóstico era doença maníaco-depressiva, e o lítio não era negociável. Ela ouviu. E não obedeceu.

A saudade dos anéis de Saturno

Por que alguém rejeitaria o remédio que a mantém viva? Kay responde com uma imagem que ficou famosa: tomar lítio era abrir mão de voar pelos anéis de Saturno. As manias tinham lhe dado uma velocidade mental, uma euforia e uma sensação de genialidade que a vida medicada jamais devolveria. Ela sentia saudade da doença.

Havia também razões concretas. As doses de lítio usadas nos anos 1970 eram altíssimas. Ela sofria com tremores nas mãos e náuseas severas. E o efeito mais cruel de todos, para uma acadêmica: perdeu a capacidade de ler. Por quase dez anos, as linhas embaralhavam, a concentração escorria. Uma mulher que vivia de livros ficou sem livros.

Então ela parava o remédio. E a doença voltava para cobrar. A recaída mais brutal foi uma depressão que durou dezoito meses — não tristeza, mas uma anestesia total, um deserto onde nada dói porque nada existe. No fundo daquilo, Kay tentou se matar com uma overdose de lítio. Sobreviveu por pouco. Foram os amigos que a vigiavam, o cuidado prático da mãe e a insistência inabalável do psiquiatra que a puxaram de volta. Ela entendeu, tarde, que remédio sozinho não basta: é preciso terapia para aceitar o que o remédio custa.

Um oficial e um cavalheiro

David Laurie era psiquiatra do Exército Britânico. Kay o conheceu quando ainda estava se reconstruindo, e ele fez algo que nenhum tratamento tinha feito: tratou a doença dela como um fato da vida, não como um segredo vergonhoso.

Quando o lítio a impedia de ler, ele lia para ela. Poesia e romances, na cama, em voz alta, contornando com paciência a falha cognitiva que a medicação impunha. Foi uma solução simples e amorosa para um problema que a medicina não resolvia. Ele também a apresentou a outros oficiais de alta patente que conviviam com a mesma doença — homens condecorados, funcionais, competentes. Ver aquilo demoliu parte do estigma que ela carregava por dentro.

Então David morreu. Ataque cardíaco fulminante, durante uma missão em Hong Kong, sem aviso. E Kay descobriu algo que só quem conhece os dois estados consegue formular: o luto verdadeiro dói, mas está vivo. Tem memórias boas, tem lágrimas, tem esperança misturada. A depressão clínica é outra coisa — é seca, química, sem paisagem. Perder alguém que se ama é humano. A depressão rouba até a capacidade de perder.

Reconstruindo a mente, enfrentando os genes

A cicatrização veio com um ano sabático na Inglaterra, dividido entre Oxford e Londres. Kay voltou a pesquisar, voltou a caminhar, voltou a se interessar pelo mundo. E, sob supervisão médica, fez o ajuste que mudaria sua funcionalidade: reduziu a dose de lítio.

O efeito foi devolver a mente. A clareza voltou, a leitura voltou, as emoções recuperaram intensidade sem disparar a mania. É um detalhe técnico com peso enorme de vida — a diferença entre estar sedada e estar tratada muitas vezes cabe numa dosagem bem calibrada, feita com um médico que escuta.

Foi nesse período que ela conheceu Richard Wyatt, eminente pesquisador de esquizofrenia, com quem viria a se casar. O temperamento dele era calmo, estável, quase o oposto do dela — e funcionou como porto seguro. Mas nem tudo foi cura. Kay também precisou encarar a genética da própria doença, e encarou da pior forma possível: um médico a aconselhou friamente a nunca ter filhos. Sem conversa, sem cuidado, sem opção. A crueldade não veio da doença. Veio de dentro da medicina.

O peso das palavras e o medo dos formulários

Kay resiste ao rótulo contemporâneo transtorno bipolar. Para ela, a expressão é higienizada demais, arrumada demais, como se descrevesse uma oscilação leve entre dois polos educados. Ela prefere doença maníaco-depressiva, o termo histórico, porque nomeia o que realmente acontece: mania e depressão, com toda a violência que essas palavras carregam.

O medo profissional nunca desapareceu. Ela descreve o pavor concreto de preencher formulários de privilégios clínicos de hospitais, aqueles documentos que perguntam sobre histórico psiquiátrico e podem custar a carreira de um médico. É por isso que tantos profissionais de saúde não buscam ajuda: eles sabem exatamente o que arriscam. O alívio, para Kay, veio do apoio incondicional do chefe do departamento na Johns Hopkins, que sustentou a posição dela em vez de escondê-la.

E há uma pergunta que ela deixa aberta, sem resposta confortável. As complexas questões éticas em torno do sequenciamento genético da doença maníaco-depressiva incomodam: se um dia for possível eliminar esses genes, o que mais desaparece junto? A energia extrema, a associação criativa, a intensidade que marcou artistas e cientistas ao longo da história fazem parte do mesmo pacote biológico.

O quebra-mar

A imagem que Kay escolhe para o fim é a de um quebra-mar. Não uma cura, não uma vitória — uma estrutura construída pedra por pedra para que as ondas cheguem à costa sem destruí-la. O lítio é a base. O amor e a terapia são o reforço.

Ela é honesta sobre o preço. A vida medicada é mais plana. Não existem mais aqueles picos incandescentes, aquela sensação de velocidade divina, aquele mundo em cores impossíveis. Ela sente falta. Diz isso sem romantizar e sem se envergonhar. Mas coloca a conta na mesa com clareza brutal: o preço a pagar por recusar o tratamento é a loucura descontrolada ou a morte. Não há terceira opção.

Por isso a aceitação dela é melancólica e grata ao mesmo tempo. Melancólica porque algo se perdeu de verdade. Grata porque ela está viva, casada, produtiva, escrevendo. E quando se pergunta se escolheria não ter a doença, a resposta surpreende: enquanto existir lítio para mantê-la viva, ela escolheria tê-la. A condição a obrigou a testar os limites da mente, a sentir mais fundo, a amar com mais intensidade e a reconhecer os dias de sanidade com uma gratidão que ninguém mais consegue ter.

O que a tempestade ensina

Nenhuma vida se protege construindo muros contra si mesma. Kay Redfield Jamison mostra que domar uma mente turbulenta exige as duas coisas que costumamos separar: a química fria de um comprimido e o calor de alguém lendo poesia em voz alta. Coragem, aqui, não é vencer a tempestade — é aprender a nomeá-la, medicá-la e ainda assim viver inteira dentro dela.

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Quem escreveu o livro?

Kay Redfield Jamison é uma psicóloga clínica e escritora norte-americana cujo trabalho se concentra no transtorno bipolar. É professora Dalio de Transtornos de Humor e professora de psiquiatria na Johns Hopkins University School of Medicine, com formação em psico... (Leia mais)

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